terça-feira, 28 de outubro de 2008

Viver

Viver é deixar-se ir
Com a natureza
E aprender com ela

Morrer na terra e depois brotar
Flutuar no ar, sem direção
Navegar com a água
Queimar com o fogo

E renascer
Na nova semente
Flutuar
No próximo vento
Evaporar e chover
Nascente
Apagar e reacender

Seguir na roda da vida
Sem se prender, sem resistir
Deixar-se e conhecer o novo a cada volta
Maravilhar-se e deixar que vá, pois irá

Como o sol, a lua, a terra
Ir, girar, soltar-se e voltar.
Sem mérito, sem vergonha
Apenas cumprindo seu ciclo

E girar, rodar, voar e renascer

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Não é bom caminhar chorando

Não é bom caminhar chorando
Creio que seja deselegante
Podem achar estás sofrendo
E que tua dor é tamanha
Que já perdeste o controle

Creio que não seja recomendável
Nem socialmente correto
Pode causar espanto ou compaixão
Às vezes, repulsa
Melhor te comportares

Creio que é melhor nem saíres
Se for para ser assim
Fica em casa e espera

Até o choro cicatrizar
Até a dor acalmar
Até te conformares
Que não tens mesmo aonde ir
Que não tens por onde caminhar

Pois sempre estarás sozinho
Só com ela ao teu lado
Sempre junto, dentro de ti
Sempre companhia silenciosa
Sempre que caminhares

Então, para não entristecer tua saudade,
Creio que não seja bom caminhar chorando

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Apenas vôo

Sigo sozinha no meu vôo
Não sigo ninguém
Ninguém me segue

Só tenho paradas
Só tenho pousos
Não tenho destino
Ele é voar

Ave, abelha, borboleta
Tanto faz a forma
Não tenho espelho
Sei que vôo
E que semeio

Semeio sem querer
Do pólen que se gruda em mim
E distribuo flores
Que nem vejo brotar
Que nem sei de onde são
Nem sei em que jardim

Apenas vôo
E, quando paro,
Deixo um pouco do que trouxe
Levo um pouco do que há
Sem consciência
Apenas o que se gruda
Apenas o que se desprende
Das minhas asas
Enquanto vôo

Pois, sem destino
Não tenho lar
Não tenho ninho
Não tenho onde morar
Apenas vôo

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Beatriz Morreu

Beatriz morreu
Morte prematura
Morreu da pior morte
Sem ninguém, esquecida

Antes de nascer, Beatriz morreu
Não foi aborto
Foi antes de ser concebida
Beatriz morreu e só eu senti

Ninguém a velou
Nem a enterraram
Pior assim
Ficará para sempre

Sempre morta
Nunca concebida
Sempre uma ilusão
Morta de morte morrida

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Mais uma vez

Mais uma vez acreditei
Mais uma vez voltei
Mais uma vez esperei
Mais uma vez em vão

Mais uma vez disseste sim
Mais uma vez confessaste
Mais uma vez choraste
Mais uma vez vieste não

Mais uma vez me indignei
Mais uma vez sabia que seria assim
Mais uma vez sofri

Mais uma vez disse que será a última
Mais uma vez sei que não será
Mais uma vez mais uma vez

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Gosto, mas espere

Gosto de teus olhos pequenos
Gosto de ouvir tuas histórias
Ternura mansa
Não deixe que te curem

Gosto de sua presença
De sua pele, suas costas
Suavidade leve
Não aceita qualquer vida

Ainda não é tempo
Tenho muito a fazer
Doçura constante
Não espere por mim

Ainda não há casa, nem varanda
Teremos sacada, de frente para o mar
Voa em paz, segue sua luz
Não me beija agora, espera

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Partiu

E partiu
Sem dizer nada
Sem adeus
Simplesmente partiu
Levou uma parte minha junto
Não sei para onde foi
Não sei se colará novamente
Mas partiu, sem dizer uma só palavra
Foi sabe-se lá para onde
Deixou-me aqui

Também estou partido
E nem sei onde
Sensação de acabou, de foi
De não há mais tempo
O que tinha foi mal usado
E se partiu
De seco, de falta de água
De frio, como se partem os lábios
Quebrou, partiu
Foi embora